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ANTES DA FORMA, O ENCANTO

2026

A palavra fetiche chega ao vocabulário da arte marcada por uma violência histórica. Sua raiz remonta ao latim facticius, aquilo que é fabricado, artificial, feito pela mão humana. No português, o termo deriva para a palavra feitiço, utilizada no contexto colonial para nomear objetos venerados pelas populações da Costa do Ouro na África investidos de poder espiritual e tratados pelo olhar europeu como superstição, exotismo e desrazão. Antes de ser categoria estética, o fetiche foi instrumento de distorção: uma tentativa de reduzir cosmologias complexas a curiosidades materiais.

Recuperar a raiz da palavra e realocar seus sentidos é disputar símbolos que nos constituem. O chamado “fetiche” reaparece não como superstição, mas como sistema simbólico, condensação de forças, objeto vivo inseparável de comunidade, rito e memória. A exposição evidencia que não existe objeto neutro: toda forma carrega relações, temporalidades e modos de mundo.

Na obra de Mônica Ventura, acessamos uma série de práticas que aproximam objetos e processos rituais de diversas origens através da arte. Não como ilustração histórica, mas como prática, tecnologia simbólica, operação de transformação, matéria animada. Esculturas, pinturas, instalações surgem como corpos-recipientes de energia, dispositivos de troca entre visível e invisível. A exposição propõe, assim, um deslocamento do fetiche colonial para a obra ritual – não como relíquia etnográfica, mas como presença ativa.

A exposição Antes da forma, o encanto apresenta desdobramentos da pesquisa que a artista vem desenvolvendo nos últimos dez anos através de obras e instalações inéditas para pensar um mundo no qual matéria e espírito não se separam. O sensível, aqui, não se opõe ao conhecimento: é outra via de inteligência da matéria.

A cabaça atravessa toda a mostra como eixo formal e ancestral. Para a artista, e a partir de muitas cosmovisões afro-indígenas, o fruto da Lagenaria siceraria, também conhecido como cuia, igbá ou poronga, é a forma matricial do mundo. Pensando a cabaça como vaso ritual e corpo ancestral, seu desenho curvilíneo, simultaneamente ventre, recipiente e semente, desdobra-se em múltiplas linguagens. A cabaça aparece em ouro, em aço corten, em madeira carbonizada, em cerâmica e em sua forma natural, tornando-se monumento: um corpo múltiplo.

A artista atua como pesquisadora: investiga materiais, cosmologias, técnicas construtivas, liturgias, plantas, óleos essenciais, metais, pigmentos e modos de fazer que atravessam tempos e geografias.

A exposição pensa identidades como rede em movimento contínuo, tornando o espaço expositivo em um laboratório, abrigo e altar. Da alquimia e da espagiria à construção de altares; dos modos de erguer paredes de terra às geometrias devocionais; das oferendas votivas às arquiteturas simbólicas que atravessam o hinduísmo e o Candomblé. Essências, circulação, retornos: tudo gira como roda. Nesse circuito, acessamos princípios dinâmicos como passagens, trocas e recomeços.

Se o fetiche colonial procurou aprisionar o objeto em uma leitura fixa, Mônica Ventura devolve à forma sua instabilidade original. Cada obra é um feitiço que age, transforma e devolve movimento ao mundo.

– Catarina Duncan

 

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